Cheiro de Pólvora


Publicado em 16 de setembro de 2016

É hilário, cômico, se não fosse trágico. Não sei quantas vezes ainda voltarei a esse tema. Já escrevi sobre o assunto e pelo andar da carruagem, infelizmente, se não for um dia atingido por uma bala perdida, serei obrigado a repeti-lo inúmeras vezes, tal o grau de relevância. Não foi a primeira vez, e tenho certeza absoluta, não foi a última.

Está se tornando corriqueiro. O estardalhaço no meio da madrugada. Tiros de armamento pesado. Estampido de dinamites. Medo e pavor. Mais um assalto a caixas eletrônicos. Qual banco foi a ‘vítima da vez’? A pergunta está virando rotina para os moradores do centro da cidade na calada da noite.

Sou ‘menino de bate-pau’ como diz o meu amigo Rogério Bosque. Posso dizer que praticamente nasci na Rua Coronel José Levy. Morei e moro até hoje numa das extremidades dessa rua. Lembro-me dos tempos de menino quando atravessava de ponta a ponta essa rua para ir ao clube. Boas lembranças da pacata Iracemápolis.

Atualmente por força do trabalho, ainda faço esse caminho, mas não com o mesmo olhar, não com a mesma sensação de tranquilidade, não com a mesma felicidade, não com a mesma inocência.

Vendo o vídeo do acontecido pensei: ‘mas isso não foi aqui em Iracemápolis. Pode ter sido em Saraievo, na Bósnia e Herzegovina, ou na Síria, ou então na Palestina.

É profundamente triste você se dar conta de que o seu lugar já não te pertence. Não é uma questão de bairrismo. Longe disso. Sou daqueles que acreditam, inocentemente, de que no mundo não deveria haver fronteiras. É apenas uma questão de perceber o quão cruel é você ser afrontado em sua própria casa via violência extrema, via intimidação. É um sentimento de impotência. O lugar que você tanto ama virando palco de guerra. Ou alguém tem dúvida de que isso é uma guerra? Velada, mas guerra. Não quero entrar nos méritos dos culpados, dos desmandos da política, das desigualdades.

Quero apenas chorar lágrimas de menino que um dia correu se esconder dos amigos ali nos muros do Bradesco na brincadeira de esconde-esconde. Sem preocupação. Feliz. Alegre. Contente. Sem saber o significado de dinheiro e sem sentir cheiro de pólvora!