Conversa…S


Publicado em 6 de março de 2015

Na padaria Eusébio Monteiro toma vagarosamente um “cappuccino” e observa o entra e sai dos consumidores sempre apressados. São sete horas da manhã de uma segunda-feira. O movimento é grande e as pessoas parecem exaustas, talvez resultado do fim de semana que sempre passa rápido demais. Segunda é segunda, pensou Eusébio. Uma “baguete” de salame com mostarda, por favor! Quem fez o pedido foi uma moça aparentemente tímida. Pediu em um tom de voz baixo.

Apesar disso veste um minúsculo shorts deixando à mostra pernas lisas e torneadas onde na coxa direita foi tatuado em letras vermelhas e garrafais – Heaven and Hell. Eusébio ficou excitado. Uma senhora de óculos de sol e bolsa de pele de jacaré pediu cinco pães bem branquinhos, dois sonhos e o troco em balas de framboesa. Não disse bom dia a ninguém. Apesar da aparente arrogância parecia preocupada. Saiu sem dizer mais nada, nariz empinado, salto alto e olhando sem parar no relógio dourado que balançava junto de várias pulseiras também, pelo menos na aparência, de ouro. Um senhor grisalho, barbas por fazer, gordo, e já cedo suando como uma cabra, na espera por ser atendido, conversa com uma moça ruiva. Ele reclama de tudo e parece que faz questão de fazê-lo em voz alta. É perceptível que sua intenção é que todos no recinto ouçam sua opinião a cerca de diversos assuntos. Ele divaga sobre a epidemia de dengue que assola a cidade vizinha.

Acha um absurdo. Coloca a culpa em políticos. O prefeito tá querendo verba do estado pra desviar mais um pouco de dinheiro. Não duvido se não são esses fdps que soltam essa mosquitada de madrugada. É porque na casa deles deve ter tela, inseticida importado. Até segurança contra mosquito deve ter na casa desses desgraçados. A moça junto dele não tem expressão no rosto. Não sorri, não responde ao homem, só consente com a cabeça concordando com tudo. Tem ar de tristeza no semblante. Ela não deve nem estar ouvindo o chato, deve estar em outro planeta, pensa Eusébio. Mas o senhor gordo metralha. E os aumentos? A gasolina está um abuso. Oh moça, o homem grita para a atendente. O pão aumentou também? Assim não dá. Só tem ladrão nesse país. O homem gordo e a ruiva finalmente fizeram o pedido, aliás, uma compra exagerada em doces. Saíram deixando um zumbido no ouvido dos que ficaram. Eusébio, pela fresta da porta ainda viu o senhor esbravejando ao abrir a porta de sua Hilux branca. Depois de atender mais cinco clientes e a padaria finalmente dar uma trégua às atendentes, Eusébio pode ouvir a balconista dizer para a moça do caixa. Esse povo rico só reclama né Zéfa? Quero ver trabalhar o tanto que a gente trabalha, ganhar mixaria, muitas vezes ser ignorada ou ofendida e mesmo assim manter bom humor. Eusébio se levantou, pediu a conta e leu uns dizeres numa placa colada na estante ao lado – Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde.

E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido.