Dona esperança


Publicado em 10 de junho de 2016

“Não tenho esperança em nada. Odeio a esperança. A esperança já f… com a América Latina e você vem me perguntar, aos 79 anos, se tenho esperança? Minha esperança é que você não viesse aqui hoje. Era a única (risos).” Essa foi a resposta do saudoso Antônio Abujamra (1932-2015) dada a um repórter do jornal Estadão quando perguntado se o mesmo tinha ‘esperança’ em alguma coisa. Abu, como era conhecido se formou em filosofia e jornalismo. Ele tinha um programa de entrevistas “Provocações”, que a TV Cultura de São Paulo manteve por 15 anos. Irreverente, inconformado e pessimista dirigiu mais de 120 peças e só iniciou sua carreira de ator aos 55 anos. Atuou em duas telenovelas e em três peças. Gostava de poesias, principalmente de João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond e Fernando Pessoa.

Diante do turbilhão de acontecimentos que nos acomete essencialmente na área política, e infelizmente não só nela, é de se pensar, e refletir com muita calma, a questão da esperança. Sempre fui relutante as ideias essencialmente pessimistas, mas, a cada dia que passa tento arrumar uma desculpa para enxergar uma luz no final do túnel.

A polícia Federal sempre foi vista pela população como um órgão acima da ‘sacolada’ geral de corruptos e ladrões a solta pelo país. Ouvi muita gente dizer (o que eu mesmo pensava) que os federais sim são exemplos de honestidade e que, se tudo funcionasse naquele padrão, o país poderia andar melhor das pernas. E aí vem o tal ‘Japonês da Federal’ (risos para não chorar) para nos jogar na cara o quanto somos inocentes. Penso na ‘Peppa Pig’ dizendo: papai bobinho. O ‘cara’ que foi visto em outras épocas como ‘quase um herói nacional’ (ele sempre estava nas fotografias escoltando corruptos presos por operações da justiça brasileira) aparece agora como o grande vilão. O cara que prendia, agora foi preso. Um policial federal corrupto. Não devemos generalizar. Não devemos, porém é um soco no meio das narinas do Brasileiro. Laranja podre impregna. A gente não sabe se acredita no STF (Supremo Tribunal Federal), no STJ (Tribunal de Justiça). Virou uma salada geral e muito misturada.

E aí em outra esfera social acontece um estupro coletivo. E somos obrigados a ouvir argumentos de todos os tipos. Gente ‘de bem’, ‘gente religiosa’ procurando argumentos para culpar a menina. Sinto-me no Coliseu Romano. Gladiadores (escravos ou prisioneiros de guerra é lógico) na Arena, lutando com os leões e lançados a própria sorte. Não importa se foram trinta, cinco, ou apenas um. Não importa a procedência e os vícios da moça. Importa o ato desumano. Um ato feito sem consentimento é barbárie. Você que acredita que a moça mereceu por isso ou aquilo não passa de um bárbaro, que adora crueldade. Você é desumano, grosseiro, rudimentar. Faltou em sua vida aprender civilidade. Você anda com ‘crava’ na mão. Seu cérebro não evoluiu. Você é um homem (ou mulher) das cavernas. Em sua cabeça vergonhosa a menina deveria ser esquartejada e jogada aos leões. E a Dona esperança é a última que morre. Haja esperança!