Empada de rodoviária


Publicado em 27 de abril de 2018

Na farmácia duas atendentes conversavam baixinho:

-Já faz seis meses que entrei trabalhar aqui e o chefe não me deixa fazer nada ainda, não é estranho?- reclamou uma.

-Não! Com certeza, ele está deixando você observar e aprender o trabalho, depois você começará a atender também – disse a outra.

– Mas ele não me fala nada, não me orienta. Mesmo quando tem várias coisas pra ele fazer, eu vou pra lá e pra cá atrás dele e nada de afazeres pra mim – queixou-se novamente a novata.

-Fica tranqüila! Vai observando – reafirmou a atendente apaziguadora.

-Não sei não. Sabe como estou me sentindo? – nesse ponto da conversa eu não agüentei e olhei pra ela, precisei ver a cara dela e se o que ela ia dizer de fato correspondia ao seu sentimento de frustração. Ela viu que eu olhei curiosa, levantou a cabeça, encheu o peito e indignada exclamou: – Como empada de rodoviária! Está ali faz tempo, já esfriou e fica só de enfeite.

A atendente ia responder, mas não deu tempo. O chefe chegou, ela só engoliu o riso e saiu de fininho. A outra, a empada, foi atrás do chefe. E até eu terminar minha compra de medicamentos, ela estava lá, do lado do chefe, sem fazer nada.

Fiquei pensando no assunto no decorrer do dia. Muitas vezes, ser empada de rodoviária não é de todo ruim. A gente fica ali, fria, de enfeite, ninguém nos nota, ninguém nos perturba, parece que a gente não faz nada, mas na verdade, a gente faz sim.

O que a gente faz? A gente só observa!