O ronco da defunta


Publicado em 3 de junho de 2016

Era pouco mais de seis de tarde quando o marido chegou em casa. Da porta da sala viu a esposa na cozinha começando a preparar o jantar.

– Cheguei – falou ele sorrindo.

– Estou vendo – respondeu a mulher – E aí? Tudo na paz?

– Sim – respondeu ele, ainda sorrindo. A esposa ficou intrigada.

– Quantos sorrisos. O que aconteceu de especial hoje?

– É que cedo quando eu saí para trabalhar eu esqueci o celular aqui. Daí eu voltei pra cá umas sete e meia. Fui até o quarto e você estava deitada. Chamei seu nome, dei umas batidinhas na porta e nada de você acordar. Nem sequer se mexeu na cama. Então eu me virei e voltei pro trabalho – falou ele.

Ouvindo isso, a esposa fitou o marido indignada e deu vazão a todos os pensamentos que passaram em sua cabeça naquele momento esbravejando incontrolavelmente com o pobre coitado:

– Não acredito! Você voltou em casa, foi até o quarto, me viu deitada, chamou meu nome, bateu na porta e mesmo eu não acordando você deu as costas e foi embora? Eu podia estar morta! Pior, ia passar um dia inteiro até você voltar e descobrir que eu morri. Olha o relógio, seis da tarde. Você ia chegar esse horário… Então eu já ia estar roxa, fedida e inchada. Você ia ter que chamar médicos pra atestar o óbito e até a guarda municipal para registrar a morte. Todo mundo ia aparecer e me ver naquele estado e além de tudo de camisola velha – falava a mulher, andando de um lado para o outro – Meu Deus! Isso é um absurdo. Para onde foi o amor! Imagina só. Me deixar lá no quarto, sozinha, largada. Meu Deus! Eu morta! – e num misto de raiva e tristeza pela suposta falta de compaixão do marido, abaixou a cabeça sentindo-se de fato finada.

O marido coitado, compreensivo e paciente, aproximou-se da esposa e abraçou-a. Olhou naqueles olhos que estavam prestes a derramar lágrimas e com todo o carinho perguntou:

– Mas morto ronca?

A mulher desvencilhou-se do abraço e voltou pros afazeres.

O marido sorrindo por dentro seguiu pro banheiro tomar um banho depois daquele longo dia de trabalho. Assunto encerrado.