Vida de índio


Publicado em 5 de abril de 2019

A família estava reunida na sala assistindo uma reportagem sobre o povo indígena e após ver vários indiozinhos dançando, nadando pelados no rio e caçando com os pais, Joãozinho levanta-se de súbito e exclama:

-Eu quero virar índio! Mãe, pai, vamos ser índios?

Os pais se entreolharam e sorrindo explicaram para o pequeno que ser índio é pertencer à raça indígena, ou seja, já nascer de uma família de índios. Não dá para virar índio. O menino então triste afirmou:

-Seria tão legal fazer isso que eles fazem. Quanta aventura!

No final do programa as crianças foram para a cama e os pais ficaram refletindo sobre o modo de vida do povo indígena.

-Mas a gente é um pouco índio, não é não? – falou o marido sorrindo.

-Como assim? – perguntou a mulher, mas já imaginando a resposta.

-Ué…antigamente tinha-se a ideia de que os índios eram selvagens, de luta, saíam no “uuuuuuuu” e começava a guerra. Se for pensar nesse tipo de índio, o que a gente vê hoje? Um bando de selvagens guerreando pelas ruas, matando uns aos outros, querendo comer o outro vivo! Canibais!

-Nada a ver! – retrucou a esposa. – No meu tempo não se falava isso dos índios, não. A gente sempre aprendeu que eles caçam para se alimentar, que eles plantam e colhem, cuidam da família e respeitam os mais velhos. Esse tipo de gente que você fala não são índios não. São gente da idade da pedra, povo medieval.

-Não! – retrucou o marido – antigamente o povo medieval era conhecido por ser o mais inteligente, etc…etc…etc…

E assim continuou a conversa do casal tentando descobrir que raça é essa que se vê hoje: gente intolerante, impaciente, que mata por prazer e briga sem necessidade. Uma raça estranhamente interligada à um equipamento eletrônico sem vida, monitorando e sendo monitorada 24 horas por dia.

A conversa continuou até o sono chegar. No quarto ao lado Joãozinho acordado ainda queria virar índio, e certamente esse pensamento vai estar sempre na cabeça dele quando ele crescer e ver coisas tão absurdas que vai dar vontade mesmo de fugir para selva e viver lá, pelado, cantando, comendo raiz, mas em paz.