Saudade do que ainda não vivemos


Publicado em 7 de junho de 2019

É interessante como os assuntos são tratados no Brasil. O que na teoria, seria relevante discutirmos, na prática, o que se discute são situações que não vão acrescentar nada em nossa vida.

É só comparar: semanas atrás foi divulgado um vídeo de vandalismo em uma escola na cidade de São Paulo, inclusive com a professora sendo agredida. Semana passada vem os vídeos do jogador estrela e a lavação de roupa suja em rede nacional. Vocês sabem o que repercutiu mais? Nem precisa pensar pra responder. E a história sórdida continua ainda, Deus sabe até quando vai. Você liga os noticiários e só ouve isso. Comparem os minutos em que se fala do jogador e sua infeliz empreitada, com os minutos dedicados a chamar a atenção do povo para a violência crescente nas escolas e vejam a diferença.

Da comédia do jogador, porque já virou meme, já tem piada e tudo mais, eu destaco a malfadada frase que acabou tendo tudo a ver com o momento atual: “Saudade do que ainda não vivemos”.

A gente tem saudade de um país que ainda não se concretizou. E não por culpa só dos governantes, não. Culpa nossa também, do povo, que se alimenta da mídia tendenciosa, da fofoca, do vexame e que não luta pela vida digna que todos nós merecemos. Será que não estamos enxergando o buraco em que nós estamos nos metendo também? Perdemos tempo assistindo as trapalhadas de quem não sabe lidar com a fama e está enterrando o dom que tinha aos poucos, e deixamos para trás a discussão que precisamos ter sobre nossos filhos nas escolas, sobre o educar que anda fora de moda, sobre o respeito aos professores e a participação cada vez mais escassa dos pais na vida dos filhos. Isso além de outros assuntos sérios que andam acontecendo por aí, que envolvem nosso dia a dia, nosso futuro. Ficamos ligados nos acontecimentos da vida alheia e nem lembramos que no último dia 05 foi Dia Mundial do Meio Ambiente; continuamos jogando lixo na rua, nas calçadas, no terreno do vizinho e nos rios. O Maio Amarelo passou e continuamos a estacionar nossos caminhões em cruzamentos, atrapalhando a visão, causando acidentes, não paramos em faixas de pedestres e não respeitamos o PARE. Porém, isso não é relevante pra nós. Relevante é especular as cenas dos próximos capítulos de uma novela mal escrita que crianças e adolescentes assistem juntos com os pais e, pior, sonham em se um dia, ser como os atores principais.

Com certeza, depois de tudo isso, o jogador vai ter saudade do que ele nunca deveria ter vivido e nós, sem sombra de dúvida, vamos continuar com saudade de um país que talvez nunca veremos.